Vivemos em uma época em que é perfeitamente possível estar casado e, ainda assim, não compartilhar verdadeiramente a vida. Podemos morar na mesma casa, pagar as contas, criar os filhos e até dormir na mesma cama, mas viver distantes. O trabalho, os compromissos, os amigos, as telas, os interesses pessoais e tantas outras coisas podem ocupar pouco a pouco o espaço que deveria ser preenchido pelo tempo dentro de casa.
Por isso, uma orientação de Pedro aos maridos chama minha atenção de maneira especial: “Maridos, vós, igualmente, vivei a vida comum do lar, com discernimento; e, tendo consideração para com a vossa mulher como parte mais frágil, tratai-a com dignidade…” (1 Pedro 3.7).
Pedro não diz simplesmente para o marido estar dentro de casa. Ele fala sobre viver a vida comum do lar. A ideia apresentada no texto é a de compartilhar a vida, habitar junto, conhecer e participar daquilo que acontece debaixo do mesmo teto. Isso parece óbvio, afinal, por que um marido não viveria a vida com sua própria esposa?
O lar não deveria ser apenas o lugar para onde voltamos depois de um dia de trabalho. Nossa casa não pode se transformar em um posto de reabastecimento, onde comemos, descansamos e seguimos novamente para os nossos próprios interesses. O lar é o destino. É um dos principais lugares onde Deus nos chamou para viver, amar, servir e cuidar… E isso exige presença. Não apenas a presença física, mas uma presença efetiva.
Estar presente significa conhecer a vida da esposa. Saber o que a preocupa, o que a alegra, quais são seus sonhos, suas dificuldades e seus medos. Significa participar da criação dos filhos, conhecer aquilo que acontece na escola, acompanhar suas amizades, suas dificuldades e seu desenvolvimento espiritual. Significa perceber quando alguma coisa mudou, ouvir antes de responder e estar disposto a dividir não apenas as responsabilidades, mas também as alegrias e os pesos da vida.
Talvez esse seja um dos grandes desafios para nós, homens. Podemos ser excelentes provedores financeiros e ainda assim estar ausentes de casa. Podemos trabalhar muito para oferecer uma vida confortável à nossa família e, ao mesmo tempo, oferecer pouco de nós mesmos a ela.
É importante lembrar que prover não significa apenas trazer recursos para dentro de casa. Também somos chamados a prover presença, cuidado, liderança espiritual, proteção, amor e serviço.
Pedro continua dizendo que devemos viver com nossas esposas “com discernimento”. Isso envolve conhecê-las. Não existe relacionamento profundo sem conhecimento. E conhecer alguém exige tempo, atenção e interesse.
Depois, Pedro nos chama a tratar nossas esposas “com dignidade”. A Bíblia não apresenta a mulher como alguém inferior ao homem. Pelo contrário, o próprio texto afirma que marido e esposa são “juntamente, herdeiros da mesma graça de vida”. Há diferenças entre homem e mulher, há responsabilidades distintas dentro do casamento, mas ambos possuem a mesma dignidade diante de Deus.
Por isso, honrar nossa esposa não é apenas esperar que ela nos respeite. É tratá-la com honra. É falar bem dela quando ela não está presente. É agradecer pelo que ela faz. É ouvir sua opinião antes de tomar decisões. É envolvê-la nos nossos sonhos, preocupações e decisões. É não expô-la ou diminuí-la diante dos outros. É reconhecer que aquela mulher não é apenas nossa esposa, mas uma pessoa que Deus nos confiou para amarmos e cuidarmos.
E existe algo ainda mais sério no texto de Pedro. Ele afirma que a maneira como tratamos nossa esposa possui relação com nossa vida de oração: “para que não se interrompam as vossas orações”.
Isso deveria nos fazer parar. Não podemos separar nossa vida espiritual da maneira como tratamos nossa família. Não faz sentido levantar as mãos em adoração na igreja e não estendê-las para servir dentro de casa. Não faz sentido falar sobre amor a Deus enquanto somos indiferentes às necessidades daqueles que Deus colocou ao nosso lado.
Jesus nos mostrou outro caminho. Ele não veio para ser servido, mas para servir. Em João 13, o Senhor e Mestre se ajoelha e lava os pés dos discípulos. Se o próprio Cristo assumiu a posição de servo, nossa liderança dentro de casa não pode ser uma desculpa para exigir que todos nos sirvam.
Liderança cristã começa pelo exemplo. Por isso, servir em casa pode ser algo muito simples. É lavar a louça, retirar o lixo, ajudar com as crianças, participar das tarefas, perceber o que precisa ser feito sem esperar que alguém peça. É acompanhar uma atividade escolar, participar de uma reunião de pais, ensinar as Escrituras aos filhos, conversar sobre seus medos e dificuldades. É perguntar à esposa: “Como você está?” e realmente esperar pela resposta.
Às vezes, servir significa fazer algo que não queremos fazer, sem reclamar que estamos “perdendo tempo”. Afinal, o tempo investido na nossa família não é tempo perdido. É parte daquilo que Deus nos chamou para construir.
O casamento foi pensado por Deus como uma parceria. Não uma parceria baseada em trocas, em que cada um faz sua parte esperando que o outro faça a dele, mas uma parceria marcada pelo companheirismo.
Existe uma frase que resume bem essa ideia: não basta estar em casa, é preciso estar na vida da sua família.
É muito comum vermos em casas de famílias cristãs a frase de Josué 24.15: “Eu e a minha casa serviremos ao Senhor”. É uma declaração bonita e profundamente bíblica. Mas talvez precisemos perguntar: como serviremos ao Senhor com nossa casa se não estamos dispostos a servir nossa própria casa?
O homem que se parece com Emanuel, o “Deus conosco”, é também aquele que escolhe estar presente. Presente não apenas de corpo, mas de coração. Presente para ouvir, conhecer, proteger, liderar, servir, corrigir, abraçar, ensinar, perdoar e amar.
Que Deus nos ajude a construir lares onde a fé não seja apenas ensinada com palavras, mas percebida na maneira como marido e esposa compartilham a vida. Que nossos filhos não apenas ouçam que amamos a Cristo, mas enxerguem esse amor na forma como tratamos sua mãe. E que nossas esposas encontrem em nós não apenas um provedor, mas um companheiro de jornada.
Porque, no fim, servir a nossa casa também é uma forma de servir ao Senhor.
Que Deus nos abençoe.










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